Retornar ao Painel CH 04 // PERSONALIDADES

Preservando a Vanguarda: O Desafio de Catalogar os 60 Anos da Música Aleatória de L. C. Vinholes

AUTOR: CARLOS E. YOUNES PUBLICADO EM: 04/07/2026
PROJETO_MEMORIA_DIGITAL.SYS

Estudo de caso de design e desenvolvimento baseado no acervo e artigo original da Discoteca L. C. Vinholes da UFPel, em cooperação com a Profª Lilia de Oliveira Rosa.

Há alguns anos, assumimos uma missão complexa e pioneira no cenário cultural digital brasileiro: construir o primeiríssimo website dedicado a coletar, organizar e publicar a obra de Luiz Carlos Lessa Vinholes (Pelotas, RS, 1933).

Em uma parceria estreita com a arte-educadora e pesquisadora Profª Lilia de Oliveira Rosa, nossa tarefa não era apenas empilhar arquivos textuais, mas traduzir para a arquitetura de informação o pensamento de um dos maiores nomes da vanguarda artística nacional.

Desenvolvido originalmente sob a plataforma Joomla, o projeto exigiu uma engenharia de menus e taxonomia flexível o suficiente para abrigar um acervo que desafia a linearidade tradicional: a música aleatória e a poesia concreta.

O Caso de Estudo: A Revolução da Instrução 61

O coração desse desafio digital reside em compreender obras como a Instrução, para quatro instrumentos quaisquer e quatro colaboradores (1961) — posteriormente simplificada como Instrução 61 —, que completou o marco histórico de 60 anos de sua primeira execução.

Criada por Vinholes durante sua primeira estada no Japão como adido cultural em Tóquio, a obra foi estreada na noite de ano novo (o Oshougatsu) de 1961 para 1962, no estúdio do Grupo Música Nova Tomohisa Nakajima.

A composição rompeu com a partitura tradicional ao introduzir um método radical baseado no acaso:

O aparato: Um conjunto de 100 cartões quadrados de papel rígido (12cm de lado).

O lógica: Divididos em 4 conjuntos de 25, os cartões continham linhas horizontais longas (sons longos), linhas curtas (sons curtos), pontos centralizados ou cartões em branco (silêncio).

O dinâmica: Quatro instrumentistas (flauta, piano, violino e o tambor budista uchiwa-daiko) executavam os estímulos visuais que quatro colaboradores do público apresentavam dinamicamente à sua frente.

L.C. Vinholes e Grupo Música Nova reunidos no Estúdio Nakajima em Tóquio no ano de 1961
L.C. Vinholes e Grupo Música Nova no Estúdio Nakajima em Tóquio, 1961.Foto: Acervo UFPel.

Como bem apontou a pesquisadora Lilia Rosa em suas teses, esse evento subverteu os papéis tradicionais de "compositor", "intérprete" e "público", tornando-se um divisor de águas para a música brasileira.

Da Coreia a Brasília: A Indeterminação no Código e no Palco

Ao estruturarmos o site, precisávamos mostrar como uma obra sem um "resultado fixo" se comportava ao longo do tempo. A Instrução 61 foi desenhada para ser livre. Quando executada pela Orquestra Sinfônica Nacional de Seul em 1964 (regida por Mon Bok Kim e transmitida ao vivo pela Rádio Cultura da Coreia), o resultado foi marcado por silêncios profundos. Já 47 anos depois, na Escola de Música de Brasília, a ausência de colaboradores fez com que a orquestra gerasse complexos sonoros densos e contínuos.

"Ao cotejar os resultados sonoros obtidos nas duas ocasiões é mister afirmar que cada um deles, sendo uno em si mesmos, é igualmente válido, não admite análise, uma vez que para esta não foram criados e nem são viáveis parâmetros pré-estabelecidos..."

— Excerto do artigo “Instrução 61 na Escola de Música de Brasília”, de L. C. Vinholes.
Músicos da Orquestra Sinfônica de Seul executando a peça Instrução 61 de Luiz Carlos Vinholes
Músicos da Orquestra Sinfônica de Seul executando a Instrução 61.Foto: Acervo UFPel.

Pouco tempo depois, em março de 1962, o compositor expandiu a técnica criando a Instrução 62 para instrumentos de teclado, estreada por Tomohisa Nakajima e sua esposa Mie. Ambas as instruções ganharam o mundo ao serem publicadas na prestigiada revista japonesa Design nº 37 em 1962.

Tomohisa Nakajima e sua esposa Mie operando os cartões da Instrução 62 ao piano
Tomohisa Nakajima e sua esposa Mie usam pela primeira vez os cartões da Instrução 62.Foto: Acervo UFPel.

O Papel do Design na Memória Cultural

O pioneirismo de Vinholes como o introdutor da música aleatória no Brasil foi defendido publicamente por grandes nomes como Gilberto Mendes (na Tribuna da Imprensa, 1975) e João Marcos Coelho (na Folha de S. Paulo, 1981), corrigindo omissões históricas da literatura musical da época.

Para nós, o desenvolvimento daquele primeiro site em Joomla — feito anos atrás — foi o embrião digital que pavimentou o caminho para o que hoje é o acervo oficial preservado pela Discoteca L. C. Vinholes da UFPel. Unir o código técnico à sensibilidade curatorial da Profª Lilia Rosa nos provou que o papel do designer e do desenvolvedor web vai muito além da estética: nós construímos as pontes digitais que impedem que a vanguarda histórica seja esquecida pelo tempo.

Captura de tela da página principal do site oficial de L.C. Vinholes desenvolvido em Joomla em 2014
Print da página principal do site de L.C. Vinholes em Joomla. Por: Carlos E. Younes & Lilia de O. Rosa.CEYMUSIC PRESERVATION ARCHIVE 2014
Retornar aos Artigos