Preservando a Vanguarda: O Desafio de Catalogar os 60 Anos da Música Aleatória de L. C. Vinholes
PROJETO_MEMORIA_DIGITAL.SYS
Estudo de caso de design e desenvolvimento baseado no acervo e artigo original da Discoteca L. C. Vinholes da UFPel, em cooperação com a Profª Lilia de Oliveira Rosa.
Há alguns anos, assumimos uma missão complexa e pioneira no cenário cultural digital brasileiro: construir o primeiríssimo website dedicado a coletar, organizar e publicar a obra de Luiz Carlos Lessa Vinholes (Pelotas, RS, 1933).
Em uma parceria estreita com a arte-educadora e pesquisadora Profª Lilia de Oliveira Rosa, nossa tarefa não era apenas empilhar arquivos textuais, mas traduzir para a arquitetura de informação o pensamento de um dos maiores nomes da vanguarda artística nacional.
Desenvolvido originalmente sob a plataforma Joomla, o projeto exigiu uma engenharia de menus e taxonomia flexível o suficiente para abrigar um acervo que desafia a linearidade tradicional: a música aleatória e a poesia concreta.
O Caso de Estudo: A Revolução da Instrução 61
O coração desse desafio digital reside em compreender obras como a Instrução, para quatro instrumentos quaisquer e quatro colaboradores (1961) — posteriormente simplificada como Instrução 61 —, que completou o marco histórico de 60 anos de sua primeira execução.
Criada por Vinholes durante sua primeira estada no Japão como adido cultural em Tóquio, a obra foi estreada na noite de ano novo (o Oshougatsu) de 1961 para 1962, no estúdio do Grupo Música Nova Tomohisa Nakajima.
A composição rompeu com a partitura tradicional ao introduzir um método radical baseado no acaso:
• O aparato: Um conjunto de 100 cartões quadrados de papel rígido (12cm de lado).
• A lógica: Divididos em 4 conjuntos de 25, os cartões continham linhas horizontais longas (sons longos), linhas curtas (sons curtos), pontos centralizados ou cartões em branco (silêncio).
• A dinâmica: Quatro instrumentistas (flauta, piano, violino e o tambor budista uchiwa-daiko) executavam os stimuli visuais que quatro colaboradores do público apresentavam dinamicamente à sua frente.
Como bem apontou a pesquisadora Lilia Rosa em suas teses, esse evento subverteu os papéis tradicionais de "compositor", "intérprete" e "público", tornando-se um divisor de águas para a música brasileira.
Da Coreia a Brasília: A Indeterminação no Código e no Palco
Ao estruturarmos o site, precisávamos mostrar como uma obra sem um "resultado fixo" se comportava ao longo do tempo. A Instrução 61 foi desenhada para ser livre. Quando executada pela Orquestra Sinfônica Nacional de Seul em 1964 (regida por Mon Bok Kim e transmitida ao vivo pela Rádio Cultura da Coreia), o resultado foi marcado por silêncios profundos. Já 47 anos depois, na Escola de Música de Brasília, a ausência de colaboradores fez com que a orquestra gerasse complexos sonoros densos e contínuos.
"Ao cotejar os resultados sonoros obtidos nas duas ocasiões é mister afirmar que cada um deles, sendo uno em si mesmos, é igualmente válido, não admite análise, uma vez que para esta não foram criados e nem são viáveis parâmetros pré-estabelecidos..."
— Excerto do artigo “Instrução 61 na Escola de Música de Brasília”, de L. C. Vinholes.
Pouco tempo depois, em março de 1962, o compositor expandiu a técnica criando a Instrução 62 para instrumentos de teclado, estreada por Tomohisa Nakajima e sua esposa Mie. Ambas as instruções ganharam o mundo ao serem publicadas na prestigiada revista japonesa Design nº 37 em 1962.
O Papel do Design na Memória Cultural
O pioneirismo de Vinholes como o introdutor da música aleatória no Brasil foi defendido publicamente por grandes nomes como Gilberto Mendes (na Tribuna da Imprensa, 1975) e João Marcos Coelho (na Folha de S. Paulo, 1981), corrigindo omissões históricas da literatura musical da época.
Para nós, o desenvolvimento daquele primeiro site em Joomla — feito anos atrás — foi o embrião digital que pavimentou o caminho para o que hoje é o acervo oficial preservado pela Discoteca L. C. Vinholes da UFPel. Unir o código técnico à sensibilidade curatorial da Profª Lilia Rosa nos provou que o papel do designer e do desenvolvedor web vai muito além da estética: nós construímos as pontes digitais que impedem que a vanguarda histórica seja esquecida pelo tempo.